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A real irreverência de uma São Clemente “loooouca”!!!

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Por – OBCAR UFRJ |

No dia 03 de fevereiro de 2008, a Marquês de Sapucaí foi palco da maior “entrada régia” já vista no carnaval. Com muito “requinte e fidalguia”, a São Clemente abriu os desfiles do grupo especial do Rio de Janeiro com o objetivo de celebrar o bicentenário da chegada da família real portuguesa às terras cariocas, no enredo intitulado “O clemente João VI no Rio: A redescoberta do Brasil…”. Com muito conteúdo histórico e uma boa dose de alívio cômico, o desfile assinado por Fábio Santos, Mauro Quintaes e Milton Cunha fez jus ao retorno da preta e amarela de Botafogo ao principal grupo do carnaval. E parece que era mesmo desejo do destino que João, o Clemente, fosse homenageado pela São Clemente, a Irreverente.


Em um primeiro momento, a missão de contar a passagem da história do Brasil em que a corte de Portugal desembarca no Rio de Janeiro, fugindo da possibilidade de ser deposta pelas tropas francesas de Napoleão, e promove uma verdadeira mudança artistística, científica, econômica e social na então colônia portuguesa, poderia ser incompatível com a agremiação. No entanto, a sinopse desenvolvida por Milton Cunha foi uma aula de carnavalização e transformou o tema erudito e distante da identidade da escola em uma narrativa irreverente e bemhumorada. Com um sutil deboche, o prólogo do texto é introduzido com a frase “E já que a Monarquia é um teatro, e o Carnaval também é uma arte efêmera;”, em que a imagem formal do que seria a monarquia já é desconstruída e entendida como cena , o que a aproxima da paródia carnavalesca.
Na ficção baseada em fatos reais da São Clemente, D. Maria I – ou melhor dizendo, a rainha Maria, a Louca – em suas visões atormentadas por demônios certamente, muito carnavalescos – vislumbrou uma homenagem a seu amado filho D. João VI – príncipe regente que se tornou rei do Brasil. A loucura de Maria foi o gancho perfeito para que a celebração rompesse com qualquer ar de tradicionalismo e se tornasse uma grande alucinação. O samba de enredo, composto por Helinho 107, Ricardo, Naldo, Cláudio, Marcelo Santa Clara e Armandinho do Cavaco e interpretado por Leonardo Bessa, contribuiu para essa aproximação entre a realeza e os foliões com uma linguagem popular e íntima, principalmente nos versos do refrão principal “Cerimônia na corte, fechou geral Maria Louca arrasou no visual!”. E na avenida, essa irreverência do texto foi traduzida de forma exímia na memorável comissão de frente onde a atriz e transformista Rogéria representou Maria, a Louca. Em uma fala icônica para a transmissão, ela diz “Dona Maria Louca não tá preocupada em sambar, ela é louca! Ela vai enlouquecer com a São Clemente! Tudo isso o carnaval pode nos proporcionar.” E estava coberta de razão! A sensação é que a rainha era uma amiga que poderíamos estalar os dedos e dizer “arrasou, bicha!”.


Dando sequência aos delírios da narrativa que celebrava ao mesmo tempo em que contava os fatos revisitados, a grandiosa abertura da escola, repleta de cisnes e com toda a pompa da realeza dos séculos XVIII e XIX, representava o momento do casamento entre D. João VI e Carlota Joaquina, ainda em solo europeu. A pirotecnia dos fogos de artifício, “a mais efêmera das artes efêmeras”, e o fato de D. Maria ter encomendado fogos que pareciam safiras azuladas para o casamento, serviu de inspiração para dar formas e cores ao carro abre-alas, “Cintilam safiras azuladas pelas bodas”. A paleta cromática, então, unia as cores da escola às cores que Portugal utilizava na época.
O segundo setor tratou da vinda e da chegada da corte. As alas representavam toda a “portuguesada” que veio nos navios para viver no “verdadeiro paraíso tropical”. A ala das baianas vinha nesse setor, logo à frente do segundo carro, e representava a rainha Maria enclausurada de amores, com vários cadeados dourados, em acetato, na saia. A ideia original era que as senhoras viessem com os rostos encobertos por um véu preto – o que foi vetado pela diretoria. O véu permaneceu na fantasia, mas com uma abertura para o rosto. No entanto, a parte superior, com uma coroa e penas, era tão volumosa que o efeito de enclausuramento foi praticamente o mesmo. As mães do samba desfilaram enclausuradas pela loucura dos carnavalescos.


O carro que fechava o setor tratou do desembarque e da euforia dos que aqui habitavam em receber, pela primeira vez, uma família real europeia – com rainha, príncipes e princesas. Visualmente, a alegoria tentou materializar o contraste entre a simplicidade que havia na terra sul-americana e o luxo que chegava, com composições e esculturas que representavam a fauna e a flora brasileira e símbolos da cultura indígena e africana, além de composições em trajes da corte portuguesa na parte frontal. Segundo a sinopse, “os recém-chegados eram um povo bem diferente, pessoas meio esquisitas, e todas ‘sissi’ (se sentindo)”. No surto do encontro, fez-se festa!
O terceiro ato do espetáculo comemorativo apresentou em alas algumas das primeiras mudanças que a chegada da família real provocou no Rio de Janeiro. Com fantasias volumosas e coloridas, destacaram-se no setor os tons terrosos e as variações de verde. Na sinopse, Milton fez referência por duas vezes à célebre frase de Joãosinho Trinta “O povo gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual”: primeiro, no trecho “Mas Entrada Régia sem Palácio não dá, pois o povo gosta é de luxo (e parece que os monarcas também)”; e depois em “Imagina se eles iam patinar na lama? Nem pensar… Quem gosta de miséria é intelectual, não Corte”. Essas inserções são exemplos de como o carnavalesco consegue profanar a narrativa da família real. Ele morde e assopra.


O carro que encerrou o setor, intitulado “O Palácio de São Cristóvão”, representou a mudança da corte para esse que no futuro viria a ser o Museu Nacional – e que seria destruído em um incêndio em 2018. Possivelmente a alegoria mais bem-humorada do desfile, tinha talheres gigantes e apresentava na frente a encenação do ritual do beija-mão, em que D. João VI estendia a mão direita para seus súditos beijarem. Era um evento esperado por todos, uma ocasião “sem igual”, como dizia o samba. As composições laterais representavam as cozinheiras da corte e usavam fantasias coloridas e volumosas perucas de pompom – uma paródia das perucas da realeza. O ponto alto ficava, literalmente, no alto da alegoria: componentes vestidos de frango dançavam minueto e debochavam da fama de que D. João VI era obcecado pela “iguaria” e que o consumo diário no Palácio era de pasmem – 620 frangos!
Os setores seguintes tratavam de episódios mais burocráticos da vida de D. João VI e momentos históricos que marcaram o processo de transformação do Rio de Janeiro na capital do império ultramarino. No desfile, esses momentos ganharam forma em fantasias coloridas e volumosas, mas sem grandes pontos de criatividade. A dose de irreverência desses setores ficou restrita, em grande parte, à sinopse. O encerramento do desfile, principalmente a última ala “Saudosas lágrimas do entrudo” e o último carro “O entrudo da aclamação do Clemente e as despedidas emocionadas”, retomou o tom lúdico e fantástico do enredo. Com uma paleta cromática predominada pelo verde, branco e dourado, a escola representou o momento da partida de D. João VI para Portugal, tendo que deixar sua tão amada nação. O rei chorou, os cariocas choraram. No entanto, a tristeza deu lugar à gratidão e o desfile terminou com uma grande festa carnavalesca – mais especificamente em entrudo, a maneira como o carnaval era celebrado na época. E então, Maria Louca fica enlouquecida ao ver seu amado filho sendo homenageado no maior espetáculo da Terra.


Com seu samba leve e divertido, a São Clemente passou pela avenida sem grandes problemas técnicos, mostrando que sempre foi uma grande escola. Um dos fatos curiosos, que por pouco não prejudicou de maneira histórica a agremiação, foi a destaque de chão Viviane Castro ter desfilado com um tapa-sexo de 3,5 cm – o menor da história, segundo a mesma. A comissão de obrigatoriedades considerou que a modelo desfilou nua e puniu a escola com -0,5 décimos. O carnavalesco Mauro Quintaes, em entrevista à Folha de São Paulo, disse que “por sorte” a punição não interferiu na colocação final. De qualquer forma, a destaque trouxe muita mídia à escola pela ousadia de sua homenagem ao clemente João. O rebaixamento da São Clemente foi justificado pelo júri de maneira nada convincente. Mais uma vez fica-se a impressão de que a escola não foi julgada pelo carnaval que apresentou na avenida, mas sim por algum fator outro que a nós, meros espectadores, é misterioso. O fato é que a escola apresentou um grande carnaval, marcado pela loucura de sua proposta narrativa, pelo rico conjunto plástico e pelo animado samba. A São Clemente, tal qual Maria, arrasou no visual. Quanto aos jurados… que cortem-lhes as cabeças!!!
Autor: Cleiton Almeida – Mestrando em Estudos Contemporâneos das Artes/UFF, Graduando em Artes Cênicas – Cenografia/EBA/UFRJ, Coordenador geral e Pesquisador-orientador do OBCAR/UFRJ. Instagram: @obcar_ufrj

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