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E o Império, o que é? É vida que pulsa na avenida

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Por – OBCAR/UFRJ |

Quando pisou a Marquês de Sapucaí precisamente às dez horas da noite de domingo, o Império Serrano sabia que a tarefa de abrir os desfiles do grupo especial de 2019 não seria fácil. O temporal que atingiu a concentração e o atraso em 45 minutos para o início dos desfiles também agravaram uma situação que já era complicada. Imersa em problemas financeiros, intensificados por mais um corte dos repasses destinados às agremiações do grupo especial pela prefeitura de Marcelo Crivella, e tentando se reinventar após a última colocação do ano anterior – que só não resultou na queda para a série A porque a LIESA cancelara os rebaixamentos – a tradicionalíssima escola de Madureira contratou o experiente carnavalesco Paulo Menezes para o desenvolvimento do carnaval daquele ano. Paulo já passara pela agremiação da Serrinha em 2006, quando a escola, em enredo sobre as manifestações festivas da religiosidade brasileira e com samba-enredo ganhador do estandarte de ouro, protagonizou seu último grande momento no grupo especial.


Já ciente dos desafios financeiros que encontraria para colocar na avenida um carnaval capaz de garantir a permanência do reizinho de Madureira no grupo especial, a direção pediu ao carnavalesco um enredo ousado, cujo desenvolvimento pudesse compensar a falta de verbas. Dentre as opções oferecidas por Paulo, a escola optou pelo enredo “O que é, o que é?”, baseado na famosa música homônima de Luiz Gonzaga Júnior, o Gonzaguinha, e antiga vontade do carnavalesco. A decisão de utilizar a própria música como hino da escola na avenida, sem a realização do concurso de sambas de enredo, causou grande polêmica no período anterior ao carnaval. As críticas se centraram na dificuldade que apresentaria a conversão da música em um samba-enredo, ou seja, o desafio de acelerar seu andamento para dar sustento ao desfile sem prejudicar o canto dos componentes.


Rebatendo as críticas a um enredo que não se encaixaria no suposto perfil da escola, Paulo afirma que nunca viu o Império como escola tradicional: “Renato Lage e Fernando Pinto passaram pela escola. O olhar aqui sempre foi à frente. Não é algo na linha de 2006, não é um carnaval clássico”. O enredo parte do clássico de Gonzaguinha para ilustrar as questões sobre a vida que sempre permearam a história do pensamento humano, questões que não têm uma única resposta, mas diversas maneiras de entender e atribuir sentido à vida. É estruturado de modo simples, mas direto e intuitivo, dividindo as maneiras de encarar a vida nos setores da escola, proporcionando a criação de fantasias e alegorias de fácil leitura.


No entanto, algumas ideias acabaram comprometendo o desfile da escola, especialmente sua abertura. A comissão de frente retratou o nascimento, o surgimento de uma nova vida, como o renascimento da esperança em um futuro melhor, mas, ainda que tenha produzido certo impacto com a imagem do recém-nascido enrolado no pavilhão da escola, esbarrou em uma estética excessivamente sombria e na ausência de interação com o tripé, um tablado cinza que não adicionou em nada à coreografia do grupo. Pouco contribuiu também a ideia de elevar em alguns metros a apresentação de Diogo Jesus e Verônica Lima através do mesmo tablado, acarretando problemas na subida e descida do casal, que também sofreu com o vento nas alturas.


Como fizera em 2006, Paulo voltou a posicionar um pede-passagem na entrada da escola, com o nome do Império Serrano e duas ampulhetas em movimento, à frente da primeira ala e do carro abre-alas, que por sua vez trouxe um grande coração verde, para

representar a visão científica sobre a vida. A abertura das “portas do coração” e o surgimento da coroa imperial em dourado marcaram um belo momento de surpresa, tanto pelo que representa quanto pelo efeito obtido.


Passada a abertura, o desenvolvimento plástico do enredo seguiu um caminho de altos e baixos, sendo inegável a dificuldade da escola em colocar o carnaval na avenida, com algumas alegorias apequenadas, problemas de acabamento, e fantasias incompletas. Apesar disso, soluções muito inteligentes foram empregadas em certos momentos, produzindo fantasias de grande impacto visual sem o uso de materiais luxuosos, como a ala da criação da vida através do barro por Oxalá e a ala do cristianismo, remetendo ao estilo gótico das catedrais medievais, no setor destinado à interpretação da vida pelas religiões. Esse estilo também conformou o segundo carro, cujo elemento central é uma impressionante escultura do deus cristão, como retratado por Michelangelo em “A criação de Adão”, afresco pintado no teto da Capela Sistina em 1511, ladeado por vitrais coloridos iluminados que causam belo efeito visual.


Outros bons momentos do desfile são o tapete de rosas formado pelo inteligente figurino da ala “A Vida é um Jardim”; a belíssima fantasia arlequinada em verde e branco representando que a vida é um carnaval – a mais bonita do conjunto produzido pela escola; e a ala de baianas que, apesar dos problemas de execução e acabamento, se destacou com saias em forma de carrossel rodando para lembrar que a vida também pode ser divertida.


O encerramento da escola também merece destaque. As alas finais, trazendo uma paleta majoritariamente nas cores do pavilhão desembocaram no melhor carro da escola, “A beleza de ser um eterno aprendiz”, trazendo parte da velha guarda da escola em posição de destaque, na frente da alegoria, que era adornada por cabeças carnavalescas. A parte de trás apresentava o emblema da escola ladeado por duas figuras de São Jorge, padroeiro do Império , lançando o dragão. Se a coroa apresentada pelo abre alas era pequena para caber dentro do coração, sua versão gigante aparece girando no centro da alegoria final, estampada com as imagens de Dona Ivone Lara, que falecera no ano anterior, e trazendo bonitas figuras douradas segurando Tiês vermelhos, remetendo à primeira composição da grande dama do samba.


A aposta de Paulo e do Império em um carnaval de vanguarda acabou não sendo suficiente para sobrepassar as enormes dificuldades financeiras e a escola, sem receber uma única nota dez na apuração, teve seu passaporte carimbado de volta para a série A. Além das notas perdidas nos quesitos plásticos, a transformação do andamento da música de Gonzaguinha rendeu descontos nos quesitos samba-enredo e harmonia, sendo recorrentemente citada pelos jurados a dificuldade dos componentes em cantar o trecho mais acelerado. As dificuldades apresentadas pelo Império nesse ano de 2019 ficaram ainda mais evidentes em 2020, quando um desfile que lutou para não ser rebaixado à Intendente Magalhães apresentou o momento mais trágico da história da escola: a tradicional ala de baianas da Serrinha desfilando sem as saias, por um problema de encaixe da fantasia.


Mas o sonho meu, e de tantos outros, permanece vivo. O sonho que é representado pela ala que antecedeu o último carro do desfile de 2019, “Esperamos voltar a ser campeões”. O sonho de ver o Menino de 47 voltar a ser protagonista de uma festa que deve tanto a ele. Porque o Império é a vida que pulsa no coração de cada um de seus componentes e torcedores apaixonados. E é a parcela, por menor que seja, de sangue verde que corre nas veias de qualquer um que ame o carnaval.

Autor: Artur Tadeu Paulani Paschoa – Graduando em Arquitetura e Urbanismo/USP, membro OBCAR.
Orientador: Cleiton França de Almeida – Mestrando em Estudos Contemporâneos das Artes/UFF, pesquisador OBCAR.

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