Fique Ligado!

Império Serrano 2009: A Lenda das Sereias e os mistérios do mar

COD 289
0 0

Por – OBCAR/UFRJ |

O primeiro soar de tambores na noite inaugural do carnaval do grupo especial anunciava a entrada na Avenida do Samba do Menino de 47. Bandeirinhas tremulavam com vigor nas arquibancadas ao perceber que o carro abre-alas cavalgava trazendo consigo o que já não era mais um mistério: a corte engalanada de verde, branco e dourado. O imperiano regressava com orgulho ao seu lugar, ansioso por mais um carnaval marcante como tantos outros realizados pela escola.

Na noite de 22 de fevereiro de 2009 o reizinho de Madureira tinha alguns desafios, dentre eles: desvirginar a frigidez do público que esperava para assistir aos desfiles, este logo fora desbaratado na sinfonia dos agogôs e cuícas; um outro era emocionar corações e mentes com a releitura de um samba antológico imortalizado nas vozes de Roberto Ribeiro, Marisa Monte e Clara Nunes, estímulo resoluto na vibrante voz do intérprete Nego que convidava a arquibancada a saudar as Rainhas do mar; e, talvez o maior dos desafios, impactar os 40 julgadores no afã de permanecer na elite do carnaval no ano seguinte.

Os guardiões netunianos convidavam a navegar pelos mistérios do mar. Súditos, servos, piratas e tesouros no berço das sereias: Marabô, Sobá, Caiala, Ogunté, Inaê, Janaína, a mãe Iemanjá, que múltipla em formas encantou Madureira e a Sapucaí com seu amor. O resultado deste campeonato é sabido, com muitos decréscimos a escola foi novamente rebaixada para o grupo de acesso, contudo, há aspectos importantes que precisam ser destacados.

Aquele ano foi um dos tantos marcados pelo debate em torno da falta de investimento econômico na folia momesca. Com o desuso dos enredos patrocinados e o incentivo da Liga por reedições, o Império Serrano decide reviver o carnaval de 1976, com a carnavalesca Márcia Lage estreando seu primeiro trabalho solo. A Lenda das sereias e os mistérios do Mar trazia como proposta um resgate da essência das escola de samba, segundo a autora, um carnaval em menores proporções, que evocava a “leveza, simplicidade, alegria e amor”, características dos adeptos da escola.

Durante a transmissão na TV Globo, o Jornalista Márcio Gomes ressaltou que desde 1982 a agremiação amargurava altos e baixos. Bumbum, paticumbum prugurundum, último título do Império Serrano no grupo especial, apontava criticamente a sobreposição do visual, as super alegorias que escondia o bamba, em relação a quem conferia a autenticidade ao samba. Desde então, ano após ano, o maior espetáculo da terra tomava proporções maiores. Os carros ganharam largura e, principalmente, altura. A cidade se modernizou, a transmissão dos desfiles seguiu o mesmo percurso mudando a forma de se produzir e consumir carnaval. A Sapucaí se fez refém desse crescimento presenciando acidentes de carros alegóricos e tantos outros buracos em desfiles.

Márcia Lage estreou como figurinista exatamente em 1982, no Império Serrano, compondo a equipe da Professora Rosa Magalhães. Para o desfile de 2009 a carnavalesca apostava numa ressignificação dos quesitos visuais, o que não significava um desfile desleixado com problemas de finalização, entretanto, a produção de adereços e alegorias menores, mais leves e usuais no que concernia a proposta do enredo. O resultado foi um carnaval divertido e arrojado, uma aposta mal sucedida para o campeonato, mas que marcou os corações dos amantes do carnaval que consideram ser injustiça a décima segunda colocação e o consequente rebaixamento da escola de Madureira.

Não quero aqui ser prosélito ou fazer uma defesa cega dizendo que o carnaval citado não teve nenhum problema em sua execução, os descontos de alguns pontos se faz necessário quando o desdobramento na leitura dos quesitos não é satisfatória. No entanto, levando em consideração uma atenuação na redução das notas de alguns quesitos específicos, percebe-se que o modelo adotado pela agremiação na escolha de um carnaval com menos volume visual, que enaltecesse o folião e sua brincadeira na avenida, não foi tão bem aceita pelos julgadores.

Com a leitura das notas na apuração do carnaval de 2009 nos questionamos sobre o que mais onerou a escola: se a primazia de um desfile inusitado ao seu tempo histórico, ou a célebre sina da primeira escola de domingo que por ser avaliada de maneira mais severa, não consegue permanecer no grupo especial. Afinal de contas qual o modelo de festa valorizamos? Quais questões de fato importam na avaliação oficial realizada pelos julgadores? No que pesa a emoção sentida na avenida? O que mais importa em um desfile de escola de samba, o espetáculo visual ou a alegria do brincante representando as cores do seu pavilhão?

A lenda das sereias e os mistérios do mar deixa lições para pensarmos essa festa momesca que todo ano nos emociona. É evidente que o resultado importa, sem ele não haveria competição. Mas o que motiva o integrante da escola – o folião na avenida, o espectador que brada em alta voz nas arquibancadas o hino de sua agremiação, é o nove.alguma coisa dado pelo julgador? Acredito que não. O carnaval é feito de sentimento, da capacidade do povo de contar e reviver suas histórias. Em 2009 o imperiano desbravou os mistérios do mar, deixou ecoar o canto da sereia e encantou todos nós, súditos de uma festa ímpar e brincante.

Autor: Leonardo Cruz, bacharel em Ciências Sociais, membro-estudante do OBCAR/UFRJ

Orientador: Mauro Cordeiro, doutorando em Antropologia e Sociologia, Pesquisador-orientador do OBCAR/UFRJ

Instagram: @observatoriodecarnaval_ufrj

Happy
Happy
0 %
Sad
Sad
0 %
Excited
Excited
0 %
Sleepy
Sleepy
0 %
Angry
Angry
0 %
Surprise
Surprise
0 %

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.