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Nas Veias do Brasil, é a Viradouro em um Dia de… ventania, relâmpagos e trovões.

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Por – OBCAR/UFRJ |

Às quatro horas da tarde, daquele 15 de fevereiro de 2015, um domingo de carnaval, pensei que pudesse ser uma boa opção ir para o centro do Rio pegar um “bloquinho”, como dizem por aí. Mas, ledo engano. Não foi possível sequer sair de casa, diante do vendaval que trazia um temporal daqueles que marcam o verão.

Sem luz, achando que tudo iria voar pelos ares, e muita coisa voou mesmo, lembrei da Unidos do Viradouro, escola que abriria os desfiles das escolas de samba do Grupo Especial em algumas horas.

Lembrar daquele desfile da querida coirmã de Niterói e atual campeã do carnaval carioca, é lembrar do maior temporal que tivemos naquele ano. A dificuldade para as pessoas chegarem ao centro do Rio, os alagamentos que aconteceram no entorno, causaram um atraso de quase meia hora para o início dos desfiles. Depois de muito tempo parada debaixo daquele temporal, a Viradouro entrou na avenida com trinta alas, sete carros alegóricos, 3.500 componentes, dois tripés e muitos problemas em seu desfile, além das falhas no som da própria avenida.

Com uma bela proposta de enredo, desenvolvido pelo carnavalesco João Vitor, com as colaborações de Milton Cunha e Silvio Albuquerque. A Viradouro causou expectativa para o seu desfile, embalado pelo samba de Luiz Carlos da Vila, considerado o mais bonito daquele carnaval . O enredo “Nas Veias do Brasil, é a Viradouro em um Dia de Graça!” afirmava que a escola iria cantar “seu elogio aos valores da inteligência transcendental dos povos vindos d’África, valores esses que culminaram por estruturar a nossa alma verde-amarela.”

O texto da sinopse, escrita por Milton Cunha e João Vitor, afirmava que a escola pretendia analisar o Brasil como um “ vibrante corpo miscigenado”, onde a letra do samba do “imortal poeta negro”, Luiz Carlos da Vila, uma junção de dois sambas do autor, serviu de inspiração para a criação do enredo.

A escola compreendia o Brasil como um lugar onde “O brilhante legado criativo junta atabaque ao cocar; Faz simbiose entre o pajé e o griot: flechas e altares! Tupis, bantos, guaranis e yorubás testemunhando tupã abraçar oxalá.”
Podemos destacar no desfile da Unidos do Viradouro a força e poesia dos belos versos do sambaenredo, bem encaixados com o ritmo e as paradinhas da bateria, além do ineditismo de criar um enredo a partir da junção de dois sambas já existentes. Na parte estética é preciso destacar a segunda alegoria “Vieram Para Espalhar Suas Coisas Transcendentais”, um navio negreiro conduzido por Olokum, como um gigantesco cortejo. Infelizmente a bela alegoria não foi transmitida em detalhes pela internet que encerrou a transmissão antes de mostrá-la. Em seguida, quando começou a transmissão pela TV aberta, ao 53 minutos, o carro já estava saindo da Sapucaí.

Se o temporal foi relevante para o rebaixamento da escola? É difícil supor o resultado em um cenário hipotético de céu estrelado e brisa suave. Mas, inegavelmente, foi algo que despertou abruptamente à escola de qualquer sonho em se manter na Grupo Especial.

Para quem viu o desfile no Sambódromo, foi fácil perceber o impacto da chuva nas fantasias que perderam partes pelo caminho, nas plumas murchas, deixando aparente as varetas que as sustentavam, as composições sentadas em cima das alegorias com medo de escorregar, nas esculturas encharcadas e danificadas.

Mas, o que viram os jurados? Onde a Viradouro foi mais penalizada? Não é raro a escola que desce para o acesso ter realizado um desfile superior as que conseguem se manter. Mas, o peso da bandeira, ou a falta dele, dita a rigidez do julgamento da recém-chegada ao Grupo Especial do Rio de Janeiro. Assim, detalhes que passariam batidos em uma escola já estabilizada, são quase sempre, duramente penalizados em uma escola vinda da Série A.
Segundo o mapa de notas, nem a fusão dos dois belíssimos sambas de Luiz Carlos da Vila tirou as quatro notas dez possíveis naquele ano. A escola só gabaritou o quesito graças ao descarte de um nove ponto nove dado pelo jurado Clayton Fábio Oliveira que em sua justificativa disse : “A letra da primeira estrofe tem frases pouco caprichadas…”.

Das 36 notas atribuídas à Unidos do Viradouro pelo jurados, foram apenas três notas dez, justamente para o samba-enredo. Em todos os outros quesitos ela foi penalizada. Em harmonia, por exemplo, a escola perdeu oito décimos. Na justificativa os jurados disseram que a escola cruzou a avenida com o canto irregular em sem empolgação. Já em fantasias, os jurados relataram que estavam despencando, pesadas, faltando parte, mal acabadas e com problemas em concepção. Tirando a última justificativa, é fácil atribuir à chuva os problemas no quesito fantasia.

A chuva em si, segundo o regulamento, não pode ser utilizada como justificativa para penalizar uma escola, mas os efeitos negativos que ela pode causar, como costeiros caindo, partes descoladas e soltando, são observados pelos jurados e preciosos décimos são perdidos.

Em Alegorias e adereços os jurados versaram sobre problemas de concepção e alegorias quebradas, como o braço de uma grande escultura na última alegoria, além de platôs vazios, sem destaques. Novamente podemos atribuir as dificuldades geradas pela chuva que atrapalhou as composições na hora de subir na alegoria. Além disso, podemos citar também os danos materiais causados nas próprias alegorias castigadas pela chuva. Mas, para além do temporal, o julgador Madson Oliveira afirmou que “o conjunto alegórico apresentado ficou aquém da proposta defendida no caderno Abre-Alas”.

O casal de mestre-sala e porta-bandeira é sempre um motivo de grande preocupação quando a Sapucaí está molhada, porque fica muito escorregadia. Mas, apesar da chuva, explicitada pela jurada Mônica Barbosa em sua justificativa, o problema não foi a água e, sim, a falta de ousadia do casal em uma apresentação pouco criativa. No mesmo quesito a jurada Beatriz Badejo afirmou que a porta-bandeira estava lenta em sua movimentação. Provavelmente, com a roupa encharcada , os tão belos rodopios se tornaram difíceis de serem realizados com agilidade e leveza.

E o que podemos falar da bateria que sempre é muito prejudicada em sua afinação quando em contado com a água da chuva? O jurado Fabiano Rocha disse que apesar de uma “Possível queda de afinação dos surdos decorrente da forte chuva que caiu durante todo o desfile”, ele não levaria em consideração, mas os descontos vinham de problemas de execução da bateria, como também concluiu o jurado Xande Figueiredo que afirmou ter havido imprecisão e desencontro rítmico.

E, foi assim, até o final da leitura das notas nos demais quesitos, como na comissão de frente, enredo e evolução, os jurados destacaram problemas de concepção e diversos outros em que é possível concluir que foram provocados pela intensa chuva que caiu durante a concentração e o desfile da escola.

Se a Viradouro teria se mantido no Grupo Especial em outro cenário, é difícil falar sobre aquilo que não houve. Analisando o mapa das notas, podemos supor que seria difícil que não fosse rebaixada, mas não é possível mensurar com segurança o impacto da chuva.

Me atrevo a dizer que ela poderia não ter caído, mas ficaria nas últimas colocações, de acordo com o que foi justificado no mapa de notas. Mesmo sem a chuva, não seria um desfile triunfante, como foi o vice-campeonato de 2019, quando a escola também estava vindo da Série A.

Por último, é interessante notar que Mangueira e Vila Isabel ficaram nas últimas colocações junto com a Viradouro, elas foram foram justamente as escolas que desfilaram na sequência e também sofreram bastante com a chuva na concentração e durante o desfile, caso da Mangueira.

A Vila Isabel já não pegou muita chuva durante o seu desfile, mas a concentração mingou todas as suas plumas que segundo declaração do seu carnavalesco, Paulo Barros, eram as mais bonitas daquele carnaval. É claro que os problemas com a chuva foram somados a outros de concepção e execução. Mas, sem dúvida, foi uma personagem que influenciou bastante nos resultados.

Desejamos boa sorte a Viradouro em sua atual ótima fase no carnaval carioca. Sua contribuição para a riqueza dos desfiles é notório e a sua ausência no Grupo Especial é uma falta que esperamos não sentir tão cedo.
Boa sorte a todos do mundo do samba! Força para seguir no meio desta tragédia de quase cem mil vidas perdidas (no momento em que este texto é escrito) e esperança, porque vai passar.

Se puder, fique em casa! Autor: Max Oliveira – deoliveira.max@gmail.com

Ator, formado pela Escola de Teatro Martins Penna. Doutorando em História – PPHR/UFRRJ. Criador do projeto Poeira da História. Membro efetivo – OBCAR.

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